Reposição Hídrica e Exercício

Reposição Hídrica e Exercício

Luciano Medeiros Santiago; Giulliano Gardenghi

1. Graduado em Educação Física pela FESGO, Especializando em Fisiologia do Exercício pelo CEAFI Pós-graduação/GO – Brasil.
2. Fisioterapeuta; Doutor em Ciências pela FMUSP; Coordenador Científico do CEAFI Pós-Graduação/GO

Hidratação
Diversas são as modalidades esportivas que podem facilmente ultrapassar uma hora de duração, podendo se estender por horas de esforço aeróbio ao ar livre e sob as influências do tempo e do clima. Por ser esportes que usam de percursos longos, torna-se difícil ter um controle da ingestão de líquidos apropriada, pela dificuldade de transportar ou ter acesso a bebidas e por geralmente não usarem de intervalos periodizados para reidratação, favorecendo a ingestão ad libitum de água pelos praticantes.
Durante o exercício os seres humanos tipicamente não ingerem tanta água quanto perdem e na melhor das hipóteses, a ingestão voluntária repõe por volta de dois terços da água perdida pelo suor1.
Em geral as taxas de reidratação ficam abaixo de 500 ml por hora, e a maioria dos atletas se permite perdas de dois a três quilos de água em esportes como a corrida, o ciclismo e o triatlo. Sugere-se que a sede seja um péssimo índice da magnitude do déficit líquido, não podendo ser utilizada para controlar uma reposição completa de água perdida pela sudorese1. É interessante que praticantes de modalidades de exercícios de longa duração desenvolvam estratégias para monitorar e repor a perda de peso corporal através de líquidos de preferência a uma taxa próxima à da perda pelo suor1.
Avaliação do estado de hidratação
A avaliação do estado de hidratação corporal antes, durante e após o exercício físico é de fundamental importância por ser um fator determinante de desempenho para a prática de atividades físicas principalmente para a prática constante, além de ajudar a prevenir ou evitar os problemas de saúde provocados pelo estado de desidratação2. É possível avaliar o estado de hidratação através da variação do peso corporal antes e após o exercício, onde através da diferença entre estes valores calcula-se o percentual de perda de peso para classificar o estado de hidratação1,2.
Também é possível classificar a urina pela sua coloração utilizando-se a escala da urina proposta por Armstrong et al3. Porém deve-se ter cuidado ao avaliar o estado de hidratação pela coloração e pelo volume de urina durante períodos de reidratação para não gerar equívocos. Se uma pessoa desidratada consumir grandes volumes de líquidos hipotônicos ela terá uma produção de urina abundante, muito antes de reestabelecer o estado de euhidratação4.
Desidratação
O processo de desidratação é um dos fatores que aumentam os níveis de estresse causados pelo exercício, pois eleva a temperatura do corpo, torna as respostas fisiológicas menos expressivas, prejudica o desempenho físico e deixa o organismo mais suscetível a doenças. Tais efeitos são evidenciados de acordo com o nível da desidratação, indo de processos leves até perdas acentuadas3,5.
A elevação térmica ocasionada durante o exercício pode gerar respostas como desconforto e fadiga até, em níveis mais altos, gerar redução do desempenho. Caso o estresse térmico se prolongue por muito tempo irá gerar uma drástica diminuição na hidratação, redução esta que afeta o volume de sangue, diminuindo a pressão sanguínea, e afetando o processo transpiratório6,7.
A perda hídrica pela sudorese durante o exercício pode levar o organismo à desidratação, com aumento da osmolaridade, da concentração de sódio no plasma e diminuição do volume plasmático. Quanto maior a desidratação, menor a capacidade de redistribuição do fluxo sanguíneo para a periferia, menor a sensibilidade hipotalâmica para a sudorese e menor a capacidade aeróbia para um dado débito cardíaco4. Quando o corpo atinge a marca entre 1 e 2% de desidratação tem início o aumento da temperatura corporal em até 0,4 ºC para cada percentual subsequente de desidratação. Aproximadamente em 3% já existe uma redução importante no desempenho, entre 4 a 6% pode ocorrer fadiga térmica e a partir de 6% existe o risco de choque térmico, coma e morte8.
Os fatos sugerem que a desidratação não ocorra somente devido à perda de líquido pela sudorese e sua reposição insuficiente. O organismo deve ser capaz de absorver e reter a água ingerida e repor os eletrólitos perdidos. O suor é hipotônico em relação ao sangue e a desidratação no exercício pode gerar aumento da osmolaridade sanguínea, onde, a redução do volume plasmático e o aumento da osmolaridade acima dos valores ideais aumentam a temperatura interna, diminuindo a convecção e a evaporação do suor, dificultando a perda de calor para o ambiente. A hiperosmolaridade plasmática pode aumentar a temperatura interna, afetando o hipotálamo e/ou glândulas sudoríparas e retardando o início da sudorese e da vasodilatação periférica durante o exercício7.
A água é a opção mais comum e barata para reidratação e tem um rápido esvaziamento gástrico, porém, ela por si só não contêm quantidades de eletrólitos capazes de repor as perdas pela sudorese, sendo uma desvantagem em exercício intermitente de mais de uma hora de duração ou para atividades de menor duração e elevada intensidade como o futebol, basquete e tênis7. Segundo os autores, a hidratação somente com água possui as desvantagens de não conter sódio e carboidratos, e de ser insípida, o que favorece a desidratação voluntária (por não conter sabor) e dificulta o processo de equilíbrio hidroeletrolítico. O artigo também aborda o consumo de sódio durante o exercício justificado pela sua perda na sudorese, que varia individualmente influenciada por diversos fatores. O ACSM recomenda dentre as quantidades e composições do líquido para reidratação em exercício, que contenha ou adicione-se sódio (0,5 a 0,7 g.L-¹ de água) caso o exercício dure mais que uma hora. Isto pode ser vantajoso por melhorar o sabor da bebida, promovendo retenção de líquido e possivelmente revertendo a hiponatremia em alguns indivíduos que tenham ingerido quantidades excessivas de água1.
A presença do sódio nas bebidas esportivas melhora a absorção de água e carboidratos pelo intestino durante e após o exercício, devido ao transporte de glicose na mucosa do enterócito estar acoplado com o transporte de sódio, o que resulta em uma maior absorção de água7.
Referências Bibliográficas
1. American College of Sports Medicine. Position Stand on Exercise and fluid replacement. Med Sci Sports Exerc. 1996;28(1):1-7.
2. Moreira MCA, Gomes ACV, Garcia ES, Rodrigues LOC. Hidratação durante o exercício: a sede é suficiente? Rev Bras Med Esporte 2006;12(6):405-09.
3. Armstrong LE , Maresh CM , Castellani JW , Bergeron MF , Kenefick RW , LaGasse KE , et al. Urina indices of hydration status. Int J Sport Nutr. 1994;4(3):265-79.
4. American College of Sports Medicine. Position Stand on Exercise and fluid replacement. Med Sci Sports Exerc [periódico da internet]. 2007 [acesso em 11 out 2016];39(2):377-390. Disponível em: http://journals.lww.com/acsm-msse/Fulltext/2007/02000/Exercise_and_Fluid_Replacement.22.aspx
5. Brito ISS, Brito CJ, Fabrini SP, Marins JCB. Caracterização das práticas de hidratação em karatecas do estado de Minas Gerais. Fitness & Performance Journal [periódico da internet]. 2006 [acesso em 20 out 2016];5(1):24-30. Disponível em: http://www.redalyc.org/pdf/751/75117026004.pdf
6. Silva FIC, Santos AML, Adriano LS, Lopes RS, Vitalino R, Sa NAR. A importância da hidratação hidroeletrolítica no esporte. R Bras Ci e Mov. 2011;19(3):120-8.
7. Meir R, Brooks L, Shield T. Body weight and tympanic temperature change in professional rugby league players during night and day games: a study in the field. J Strength Cond Res [periódico da internet]. 2003 [acesso em 14 out 2016];17(3):566-72. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/12930188
8. Hernandez AJ, Nahas RM, Rodrigues T, Meyer F, Zogaib P, Lazzoli JK, et al. Modificações dietéticas, reposição hídrica, suplementos alimentares e drogas: comprovação de ação ergogênica e potenciais riscos para a saúde. Rev Bras Med Esporte. 2009;15(3):3-12.

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